História
Em 1946, um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo vivia um momento singular. No embalo das explosões nucleares em Hiroshima e Nagasaki, Harry Truman, o presidente americano estabelecia as bases da chamada guerra fria, enquanto os cientistas testavam uma máquina espantosa. O ENIAC - Eletronic Numerical Interpreter and Calculator, ou seja, Computador e Integrador Numérico Eletrônico - pesava 30 toneladas, ocupava a área de um apartamento de três dormitórios e apresentava problemas de superaquecimento e 1,7 bilhão de chances de falha nas válvulas a cada segundo... No Brasil, o general Eurico Gaspar Dutra, enfrentava as desavenças da constituinte, num panorama político agitado pelas eleições marcadas para o ano seguinte. Foi nesse cenário que surgiu, em 28 de junho de 1946, no Rio de Janeiro, o JORNAL DE DEBATES, recuperando para os brasileiros, o mesmo título que os franceses tinham acompanhado de 1789, logo após a revolução francesa, até a libertação, em 1944. O semanário era tão revolucionário quanto o primeiro computador para a imprensa brasileira que respirava com o fim da censura do Estado Novo, mas continuava tacanha e sensacionalista. Um cenário em que a nova publicação chegava às bancas propondo questões mais relevantes: Que será melhor para o desenvolvimento do Brasil, o parlamentarismo ou o presidencialismo? Tem o Partido Trabalhista probabilidade de progresso e êxito? Tem a Esquerda Democrática possibilidades de se transformar em partido socialista estável? Pode haver democracia sem liberdade de ensino? Sendo a reforma agrária fundamental para o desenvolvimento do Brasil, como orientá-la? O Metrô é a solução para o problema de trânsito do Rio? A mulher deve ter os mesmos direitos que o homem? Qual a obra-prima da literatura brasileira? Quais as conseqüências sociais da descoberta da energia atômica: fortalecerá o comunismo ou o capitalismo? Quais as conseqüências da tolerância com a cola nas escolas? A publicação não dava respostas peremptórias a tais questões, mas abria espaço para todas as correntes políticas e de opinião. Raul Pilla, deputado pelo Partido Libertador do Rio Grande do Sul, defendia entusiasticamente o parlamentarismo. O líder comunista Luiz Carlos Prestes reclamava a reforma agrária radical. O matemático e escritor Malba Tahan fuzilava a cola com muita ironia. O reitor da USP, Jorge Americano, defendia a liberdade de ensino, enquanto Venâncio Filho da Associação Brasileira de Educação minimizava a importância dessa liberdade. O udenista Aliomar Baleeiro desancava o PTB “ainda não cicatrizado da queda do cordão umbilical que o prende ao ventre obscuro da ditadura”. Hermes Lima, da Esquerda Democrática procurava demonstrar a diferença entre socialistas e materialistas. Sessenta mais tarde, em 2006, o JORNAL DE DEBATES ressurgiu na internet, com os mesmos princípios. Abaixo, a carta de princípios publicada na primeira edição, em 28 de junho de 1946 e que esta nova versão subscreve integralmente:
A liberdade de pensamento, o livre debate das idéias, é fundamental para o progresso e o aperfeiçoamento dos povos. Mas tal liberdade só se realiza pelos meios normais de divulgação: imprensa, rádio, etc. Acontece, porém, que esses meios se encontram em mãos de classes sociais e de partidos políticos, isto é, fechados a todas as manifestações contrárias aos interesses daqueles grupos. O pensamento político-econômico-social, torna-se, assim, menos um instrumento de indagação da verdade em prol do conhecimento científico e do bem público, do que um defensor de interesses particularistas dos que dispõem de poder econômico. Este jornal apresenta-se como uma tribuna absolutamente livre que agasalha toda e qualquer idéia, manifestada com proficiência sobre assuntos políticos, econômicos e sociais, não importando a cor política, a escola filosófica e o credo religioso dos autores. Não abriga, porém, ataques pessoais, diretos ou indiretos, nem injúrias, claras ou veladas, porque idéias só se destroem com idéias. Pelo debate, polêmica e controvérsia, em alto nível, pelo acolhimento imparcial de todas as correntes de opinião, este jornal pensa concorrer para o desenvolvimento da democracia no Brasil. Aqui, com efeito, todos terão iguais oportunidades de manifestar livremente seu pensamento, sem nada pagar: para o Jornal de Debates idéias são bem comum, patrimônio social.