artigo

TANTO HORROR E INIQUIDADE

A localização de ossos num bueiro próximo ao chamado Ponto Zero, no coração de Manhattan, chamou outra vez a atenção do mundo para o drama de parentes das vítimas até hoje não identificadas. E pode recolocar em debate questões importantes.  Até hoje, não há sequer uma definição precisa do número de vítimas do ataque da Al Qaeda - todas civis e indefesas. As estimativas oscilam entre 2.780 e 2996, total apresentado pelo site http://www.september11victims.com. Um ano depois do ataque, embora os peritos tivessem recolhido 19.906 restos humanos no Ponto Zero, só metade das vítimas fora identificada.
O impacto dos aviões e o fogo não destruíram totalmente os corpos, de modo a impedir sua identificação. Mas ao desabarem diante dos olhos do planeta, as torres transformaram tudo o que não era metal numa nuvem de poeira, incluindo os corpos. Em abril deste ano, 1.151 vítimas continuavam sem identificação - mesmo destino de nove mil restos mortais ainda em poder dos médicos. 
O programa oficial de identificação das vítimas terminou em 2005. Mais de um ano depois, continuam sendo encontrados restos humanos - primeiro, no teto do edifício do Deutsche Bank, a mais de 100 metros do local. Agora, num bueiro submetido a uma limpeza rotineira, provocando indignação dos parentes que ainda esperam reverenciar seus mortos, ainda que aos pedaços, literalmente.
Com o perdão da sinceridade - e sem entrar no mérito do drama pessoal de cada parente - é preciso reconhecer quão desproporcional tem sido o espaço dedicado às vítimas do ataque de 11 de setembro.  Só para relembrar a segunda guerra - e sem falar do holocausto - na batalha de Kursk, morreram 233.847 pessoas. Na da França, pelo menos 428 mil pessoas. Dunquerque deixou 68 mil baixas, apenas entre os ingleses - os alemães jamais revelaram seus números. A posse de Stalingrado, que abriu as portas para a derrota nazista, custou 2,8 milhões de vidas. Em Moscou, morreram 950 mil - somando os dois lados. O historiador alemão Jörg Friedrich escandalizou meio mundo com sua minuciosa pesquisa sobre os bombardeios que os ingleses despejaram em massa e aparentemente sem pontaria, sobre alvos localizados na Alemanha. A campanha deixou um saldo de 600 mil civis mortos, entre eles, 76 mil crianças. Só na pequena Kassel, numa única noite, dez mil civis foram mortos pelas bombas inglesas.Em Hamburgo, a contabilidade macabra é de 45 mil vítimas.Bem mais perto de nós, a ditadura argentina produziu 30 mil desaparecidos. Gente que não foi alvo de um atentado terrorista - e não estou justificando qualquer uma das atitudes, evidentemente  - mas submetidos a uma política deliberada e quase científica de eliminação dos adversários políticos. O mesmo ocorreu no Chile, no Uruguai e no Brasil, em escala muito menor, mas nem por isso, menos cruel. Em seu Genocídio - a retórica americana em questão - ( Companhia das Letras, 202, 693 páginas) que deu o prêmio Pulitezer de 2003 para a irlandesa Samantha Power há uma detalhada descrição da sistemática omissão norte-americana diante de genocídios sucessivos: Camboja, Bósnia, Iraque, Ruanda. Ao final de uma pesquisa exaustiva, Samantha constatou que "as autoridades americanas sabiam muito a respeito dos crimes que estavam sendo perpetrados. Alguns americanos importaram-se e empenharam-se por alguma ação, fazendo consideráveis sacrifícios pessoais e profissionais. E os Estados Unidos tiveram inúmeras oportunidades de mitigar e prevenir a matança. Mas, vezes sem conta, homens e mulheres íntegros escolheram olhar para o outro lado. Fomos todos espectadores no genocídio. A questão crucial é por quê?"Vários fatores potencializam o horror norte-americano no caso do 11 de setembro. Três deles: 1-     O ataque terrorista foi transmitido ao vivo e a cores para o mundo todo. 2-     Desde Pearl Harbour, os Estados Unidos se consideravam uma fortaleza inexpugnável - fantasia que desabou junto com as torres gêmeas. 3-     O método utilizado, a competência na preparação e mesmo a evidente desproporção de forças deixou no ar um alerta: ninguém está a salvo. Evidente que nesse campo delicado a aritmética não se aplica, um pode valer tanto quanto um milhão. Mas o Ocidente globalizado e cibernético estabeleceu uma estranha relação com a morte, em que a lógica não se aplica e há vasta literatura sobre a questão. Por tabela, ainda que não seja este o ponto central, recomendo O valor do amanhã, ( Companhia das Letras, 2005, 328 páginas) de Eduardo Giannetti, conselheiro deste Jornal de Debates, que pelas tantas, observa: "O que não vive, é certo, não morre..."  Giannetti aborda a morte natural, previsível e inevitável, mas também trata da cultura do imediatismo, que a meu ver, de algum modo, sustenta a exasperação diante das tragédias contemporâneas, sejam elas a queda de um avião, um tsunami ou um abominável ataque terrorista. Tomara que o 11 de setembro tenha realmente mudado o mundo e particularmente, os Estados Unidos. E não só para estabelecer maiores controles sobre a atividade terrorista. Mas para considerar todo horror igualmente abominável.

Resposta ao debate: 
20 out 2006