Festival de hipocrisia
A esta altura do século 21, o respeito a autodeterminação dos povos já deveria ter-se tornado efetivo e não um mero enfeite de constituições e tratados. A região A não está contente em pertencer ao país B? Faça-se um plebiscito, se necessário sob a supervisão da ONU, e se os separatistas ganharem, levam. Se perderem, aprendam com a maioria a viver no mesmo país.
Utopia? Nem tanto, foi assim na antiga Tchecoeslováquia, quando a Eslováquia se separou da República Tcheca. Ganhou-se um novo país e perdeu-se uma palavra difícil de escrever. Ao contrário, no Canadá, a província de Quebec, de fala francesa, optou por continuar como súdita da rainha Elizabeth.
Essa solução civilizada evita derramamento de sangue de inocentes, como acontece agora na República da Geórgia invadida por tropas russas. Não sei quem tem razão nesse imbroglio, mas quando a situação chega a esse ponto extremo ambas as partes perdem a razão que porventura tinham.
A posição da Rússia é contraditória, para não dizer hipócrita. Quando o separatismo é no seu território, caso da Chechênia, combate-o a ferro e fogo, com um exagero genocida. Quando é no território de um aliado, protesta e faz apelos em prol da unidade, foi assim quando Kosovo se tornou independente da Sérvia. Agora, no arraial de um rival histórico, aí vale o princípio da autodeterminação dos territórios rebeldes. Pimenta nos olhos dos outros é colírio.
Mas o festival de hipocrisia corre o mundo. Os Estados Unidos acham que os russos devem retirar suas tropas da Geórgia. Coisa feia - não é Bush? - invadir o país dos outros.
Outra coisa que o atual conflito prova é que o alardeado fim da Guerra Fria, com a suposta vitória capitalista capitaneada pelos Estados Unidos, é fruto de uma propaganda, senão hipócrita, pelo menos excessivamente otimista.
No período pós-Segunda Guerra, o clima de confronto permanente entre o mundo capitalista e o mundo comunista, criou interesses econômicos e estratégicos para as superpotências de então - USA e URSS. Ingenuidade achar que o fim do comunismo e a desintegração da URSS, esta feita no interesse da Rússia, que tinha mais problemas que vantagens na associação com outros países, fossem capazes de fazerem sumir da noite para o dia esses interesses conflitantes.
A Guerra Fria estava só hibernando. Neste período deixou que o conflito Ocidente-Islão ocupasse o pódio. Agora reclama novamente seu lugar.
A posição da Rússia é contradi
