Noticiar ou reportar? Eis a questão
O jornalismo vive uma crise de identidade que precisa ser resolvida com urgência. Não se pode negar que os teóricos teem razão ao dizer que "tudo é comunicação", ainda mais se levarmos em conta o mundo globalizado e as trocas constantes de informação. Tudo é comunicação, como defende Paulo Nassar e outros mas nem tudo é Jornalismo. Jornalismo não se confunde com Publicidade e Propaganda, passa longe de Relações Públicas e jamais deveria tangenciar o Marketing. Enquanto o Jornalismo o expõe a ferida, Relações Públicas não nega a ferida mas trabalha para que ela não atinja a imagem de quem a possui, o Marketing encontra clientes e nichos para a ferida, enquanto a Publicidade e a Propaganda unem-se ao Marketing e às Relações para transformar aquela ferida em um diferencial de mercado.
Todas essas áreas da Comunicação são irmãs siamesas entre si e, por mais paradoxal que possa ser, também doJornalismo. Na prática, porém, convivem em um eterno cabo-de-guerra: enquanto, no limite, cabe ao jornalismo descontruir as imagens; as demais áreas cuidam da imagem da organizações, dos produtos, dos políticos, etc. Uma organização com a imagem límpida, um produto funcionando perfeitamente ou um político sério e honesto pouco interessam ao Jornalismo. Hummm, não é bem assim: nesse último caso, político sério e honesto transformou-se em exceção que terminar por virar notícia quando é encontrado.
Eis a grande questão do Jornalismo? O que é notícia? O que deve ser noticiado ou reportado? Cremila Medina defende que "notícia é um produto à venda". Ora, se notícia é um produto, deve ser tratada como tal, portanto, precisa dos instrumentos de Relações Públicas, Marketing, Propaganda, Publicidade e quetais. Porém, Otávio Frias Filho diz que Jornalismo é um serviço público prestado por particulares. Como desfazer esse nó gótico? Se o Jornalismo é mesmo um serviço público, deveria atender aos interesses do públicos, da sociedade, não apenas como meros clientes, mas, como cidadãos plenos. Mas será que uma empresa particular pode prestar bem um serviço público sem que haja, pelo menos, uma agência reguladora? Ou a própria sociedade é capaz de funcionar como essa agência? E há outro nó: as emissoras de rádio e de televisão são concessões do Estado, as de jornal, não. E, se são concessões, não deveria haver uma Agência Nacional de Comunicação para fiscalizar o cumprimento dos contratos?
Apenas noticiar fatos não seria uma forma de "lavar as mãos" e deixar que cada um tire suas conclusões? A prática do que se pode denominar "bom jornalismo" tem de fugir às léguas das demais áreas da Comunicação. O compromisso social de um serviço público prestado de forma efetiva requer que o jornalista não apenas noticie. É preciso aprofundar, analisar, esclarecer, enfim, contribuir para uma sociedade melhor, mais justa e mais humana. Nós, os jornalistas,não somos apenas mediadores, selecionadores, gatekepperes ou coisas do gênero. Nossa função não se limita a noticiar. Precisamos reportar, angular os fatos e apresentar elementos que simbolizem valores universais de respeito à autonomia e à dignidade de todos independentemente de raça, cor, sexo e opções pessoais. Assumamos nossa identidade!
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