Puta é palavrão ou maldição?
Se até o Plutão do Sistema Solar perdeu o posto, porque a palavra puta não pode ser desbancada do dicionário de palavrões nacionais? Que o digam as prostitutas do Rio de Janeiro que ousaram transportá-la para o mundo fashion, criando a grife Daspu - inspirada na maior e mais cara boutique de luxo brasileira, freqüentada pelos homens e mulheres mais ricos do país. Aos poucos a palavra puta também é incorporada ao dia-dia da língua portuguesa e ganha outros significados. Hoje é comum ouvir alguém elogiar o automóvel de um amigo, dizendo: "Você comprou um puta carro" ou "está caindo uma puta chuva" ou ainda "estou com uma puta febre". São expressões em que a palavra puta não é usada como palavrão, mas para demonstrar intensidade, força e beleza, no caso do carro. Isso sem falar no puta deputado, frase de campanha de Fernando Gabeira.
Atualmente, na ciranda formada pela tolerância, coexistência, responsabilidade e inclusão social somadas à educação, a palavra puta é bem-vinda e é vista com os mesmos olhos que dão voz às minorias e jogam luz nas pessoas que sempre estiveram invisíveis à sociedade. Nessa temporada pós moderna de caça aos preconceitos, de inclusão dos excluídos e de estimulação da auto-estima , as putas também passam a ser protagonistas da vida real e não só da ficção.
Mas nem sempre foi assim. Palavrão ou não, a palavra puta é escrita e pronunciada pela humanidade, em várias línguas , dialetos e gírias, pelo menos há mais de dois mil anos, tempo em que viveu Maria Magdalena, a puta mais famosa do mundo. Zonah em hebraico. Courtisane ou belle-de-nuit, em francês. Bitch em inglês. Putana em espanhol. Seja em que idioma for, entre as gueixas ou as meninas do sertão nordestino, ela sempre carregou no seu DNA os genes do profano e do pecado. Inspirou obras de escritores consagrados, como Flaubert, Proust, Dostoiéviski, Thomas Mann, Gabriel Garcia Márquez, Saramago, para citar alguns. Protagonista do romantismo, viveu um dos seus momentos mais glamurosos com Alexandre Dumas, em A Dama das Camélias. No Brasil, Nelson Rodrigues temperou praticamente toda dramaturgia dele com a palavra puta. Foi a fundo, inclusive, na expressão "filho da puta", devassando literariamente os dramas e desejos mais íntimos e proibidos da família brasileira. Já o romântico José de Alencar causou polêmica e chocou a sociedade da sua época deixando-se seduzir por essa palavra ao escrever Lucíola. Mas quando está em jogo apenas uma obra de ficção, não há dúvida de que é bem mais fácil trabalhar com a palavra puta, por mais fiel que ela seja à realidade retratada. Hoje bem mais do que antes.
No fim da década de oitenta, quando comecei as pesquisas para escrever o livro Eny e o Grande Bordel Brasileiro, publicado pela editora Objetiva, em que conto a história verídica de uma das mais famosas cafetinas do país, tive que ter muito cuidado para lidar com a palavra puta. Principalmente na hora de entrevistar as pessoas envolvidas. Paulistana da Vila Mariana, Eny fez fama e fortuna nos anos 50 e 60, em Bauru no interior de São Paulo, depois de aprender a profissão trabalhando com as madames polacas e francesas que gerenciavam os bordéis do bairro do Bom Retiro, a primeira boca do lixo da capital paulista. Nos meus quase dez anos de pesquisa, perdi a conta de quantas vezes ouvi e falei a palavra puta.
Na maioria das vezes, ela chegava até mim cheia de preconceitos, deboche, gozação e até mesmo de vergonha, quando pronunciada por algumas velhinhas que viveram desse ofício. Por isso, para conseguir depoimentos, fotografias e informações do mundo de Eny tive que saber como e a hora certa de falar puta ou prostituta.
Sim, porque há prostitutas que gostam de deixar bem claro que não são putas. Confuso? Eu explico: as que se autodenominam só prostitutas se consideram mais éticas e profissionais com os clientes. "Fazemos nosso serviço, cobramos e pronto, nunca mais vamos atrás dele, não pegamos no pé", dizem. "Já as putas, estão por ai badalando na sociedade, dão em cima, engravidam, casam com eles por causa de dinheiro, tornam-se esposas de fachada para arrumar a vida e depois vivem cheias de amantes".
Na época de Eny, puta era sim, um ofensivo palavrão. Tanto era que vem daquele tempo, expressões como "mulher da vida", "mulher de vida fácil", "borboleta", que tentaram de certa forma amenizar a digamos, "deselegância" da palavra original. Eny costumava alertar suas pupilas para que quando fossem passear na cidade, saíssem muito bem vestidas. "Vocês vão ser apontadas na rua, portanto estejam sempre belas e elegantes". Ela também orientava suas meninas para que não exercitassem a maternidade. "Puta não pode ser mãe", dizia a cafetina, que também não teve filhos para não permitir que eles carregassem o pesado rótulo de filhos da puta.
Parece até que a dona de um dos maiores bordéis brasileiros, morta há quase 20 anos, estivesse pressentindo que, por mais que o tempo passasse e transformasse o significado da palavra puta, para as mulheres que viveram e ainda vivem dessa atividade, puta será sempre um palavrão, passado de geração em geração, como uma inquebrável maldição.