A festa e a era glacial:a escolha é nossa!
A globalização, apesar de suas mazelas, apesar da libertinagem de seu mercado financeiro, apesar do fato que fez da classe trabalhadora nômade em busca de oportunidades pelo globo, apesar do deslocamento dos grandes centros do poder com controle democrático para um sem número de locais de decisão que escapam da normatização social, apesar da insegurança que provocou o desmanche das instituições da sociedade moderna, tais como o Estado e a empresa, apesar de tudo isso, a globalização é uma grande festa.
É uma festa de casamento, em cartaz no filme “O casamento de Rachel” que traduz o que para nós , os cidadãos do mundo globalizado, está em jogo, quando aparecem, precipitadamente demais, as tentativas de nos fazer quer que chegou a era da pós-globalização. A festa de casamento de Rachel, norte-americana de origem indefinida, é um mix de sons que vêm do jazz, passam pelo rock, pelo samba, flirtam com melodias árabes e com a música clássica para cair no batuque da África. A festa do passeio pelo mundo mostra-se em sua mistura de trajes étnicos, no patch-work de cores presentes nos vestidos das mulheres e nas batas dos homens. Brancos, negros e asiáticos formam uma grande família multiracial, multicultural e multiparental que se irmana debaixo de guirlandas de flores colhidas a partir das sementes da rosa dos ventos. O mal-estar da morte está presente , o não-conformismo assombra a festa, a neurose da irmã incomoda a tentativa de um retrato da família feliz pós-moderna. Mas tudo acaba numa nova tentativa de viver o amor, no ensaio de uma ponte sobre o impossível de se encontrar a cara outra metade.
Na saída do cinema, a cidade de São Paulo nos espera com suas mil e umas facetas, com sua rebeldia e seus males , mas também com a promessa vivida e cumprida , dia após dia, há gerações, que aqui há um lugar para nordestinos e gaúchos, mineiros e matogrossenses, italianos, japoneses, judeus e árabes, alemães e poloneses, ciganos, russos, coreanos, enfim, para cada um com sua raça, sua cultura, sua língua, seus trajes e sua culinária. Os regimes políticos podem abrir ou fechar fronteiras, podem dar boas vindas aos estrangeiros ou não, mas a cidade não perde seu charme multicultural, não perde a oportunidade de nos convidar para viver o que é sonho dos modernos desde Immanuel Kant, a cidadania do mundo.
Que contraste entre a festa de Rachel, no cinema, entre a mescla de sotaques, nas ruas de São Paulo, e as fotografias na imprensa mostrando bandeiras nacionais hasteadas por operários que reivindicam empregos britânicos aos britânicos, enterrando, mais uma vez, o sonho que os trabalhadores do mundo possam unir-se em torno da própria causa.! Que contraste entre a festa e imagem do corpo de uma mulher marcado a canivetes com sigla a de um partido neonazista! As guirlandas de flores desaparecem e eis que surge a foto do rosto encapuçado de um policial britânico com seu capacete coberto de gelo, estampado na primeira página do caderno “mais” da Folha de São Paulo. O capacete congelado sugere: estamos entrando na era glacial da pós-globalização. Rapidamente, sem mais, estaríamos , num movimento pendular, como preleciona o catedrático norteamericano Francis Fukuyama, de volta à casa do Estado Nacional regulamentador e disciplinador. É assim mesmo no capitalismo, diz. Que o capitalismo se salva como pode, sem dó nem piedade, derrubando tudo que construiu e que encontra pela frente, aliás, já diziam Marx e Engels, em 1848.
Será? Será que nós, cidadãos deste mundo pós-moderno não temos nem vez nem voz para proferir nessa história? É o fim outra vez? Será que a mídia não está forjando uma ficção , na qual nós , os sujeitos, devemos acreditar piamente sem ter o que fazer? Será que nós estrangeiros , residentes nesta “pátria mãe gentil” Brasil, país que escolhemos para viver, vamos ter que fazer as malas, nos despedir de nossos amores tropicais e voltar para os lugares onde nascemos sem ter escolha? Vamos, outra vez, trocar a mistura de sotaques pelo uníssono, tirar os trajes multicoloridos para vestir uniformes e enterrar as bandeiras de nossas causas globais para carregar bandeiras militares? E vamos agora ser perseguidos e banidos por abdicarmos, há tempos, à família monogâmica, monoparental e vitalícia para vivermos o estilo de vida que nossos corações mandarem?
Não!
Quero crer que a chamada pós-globalização, quadrada do jeito que está sendo desenhada e propagada, seja uma besteira tão tamanha quanto o “fim da história” , decretado após a queda do Muro de Berlim. Tenho certeza que a rapaziada nascida depois da revolução cultural de 1968 tenha criado conosco uma cultura global que resista na internet, no Orkut, nas lan-houses, nas raves, nos fóruns econômicos e sociais globais, nas redes de amizades tecidas e mantidas pelo mundo virtual e real. Quero crer que resista nosso trabalho de pesquisa em redes de colegas e amigos universitários nesse mundo policêntrico que estudam desde o direito mundial até as células tronco, desde o movimento dos astros até o clima na Antártida. Que sobrevivam as redes de psicanalistas que estudam e interferem nas questões de nossa subjetividade sem as amarras do dever imposto pelas figuras paternas de outra hora. Quero crer que Barack Obama , filho da globalização, lembre que foi eleito com a torcida organizada por nós , os cidadãos do mundo, de Berlim a São Paulo, das Américas até a África.
Pois o mundo é nosso como a crise é nossa para reinventarmos um jeito de viver que mescle suas cores e seus sabores, seus sons e seus sotaques, dando valor ao traço com o qual cada um de nós pode ornar a festa.
A globalização, apesar de suas