Os semideuses da mídia
Já havia abordado em artigo o tema deste debate, mas me vejo obrigado a voltar a ele porque a mídia brasileira não pára de nos surpreender, negativamente, é claro.
Eu devo ser um completo ignorante das práticas jornalísticas, pois não atino quais razões, ditadas pelo interesse de bem informar, levam os órgãos da mídia a mandarem seus repórteres para a porta da casa onde estão hospedados o pai e a madrasta de Isabella Nardoni. Será que eles esperam que o casal, num ato de súbita contrição, ajoelhe-se diante dos jornalistas e confesse o crime?
Enquanto isso não acontece, os repórteres filmam, fotografam e entrevistam os populares que se aglomeram diante da casa, proferindo insultos e até tentando invadí-la. E fazem isso na maior cara-de-pau, fingindo que não têm nada a ver com atitudes tão hostis
Ora, senhores repórteres, os senhores são os maiores responsáveis por esse triste espetáculo, pois quando armam sua parafernália de câmeras e microfones diante da casa, chamam a atenção de quem passa, induzem e estimulam a presença de tôda sorte de desocupados, inclusive de gente que vem de outras cidades para curtir aquele momento .
Ao xingarem o casal, os populares estão na verdade ansiosos para atrair a atenção dos repórteres, quem sabe aparecem na tevê e ganham os seus trinta segundos de fama.
Sim, senhores repórteres, os senhores são responsáveis pelo transtorno dos vizinhos e pelos problemas de circulação de pessoas e veículos na rua que foi tomada pelos senhores.
A Globo entrevistou uma moradora do local, que se queixava por estar a calçada diante de sua garagem bloqueada pela multidão e ela não podia sair com seu carro. Num ato falho ou, quem sabe, de arrependimento, a câmera da Globo apontou para uma fileira de máquinas fotográficas em tripés, flagrando os autores dos abusos, colegas do cinegrafista.
Se a calçada estivesse ocupada por um camelô, a polícia já o teria retirado dali, a cassetadas. Mas a mídia goza da imunidade conferida aos semideuses.
