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Violência contra a Mulher e Prostituição Feminina: Uma relação de poder

A Pastoral da Mulher Marginalizada quer neste dia do enfrentamento a violência contra a mulher e no início da campanha de 16 dias de ativismo pelo fim da violência e pela garantia dos direitos humanos feminino propor uma reflexão mais aprofundada sobre a violência na prostituição.
O dia 25 de Novembro foi declarado Dia Internacional da Não-Violência contra as Mulheres no primeiro encontro Feminista da América Latina e Caribe organizado em Bogotá, Colômbia, de 18 a 21 de Julho de 1981. Neste encontro, houve uma denúncia sistemática de violência de gênero, desde os castigos domésticos, às violações e torturas sexuais, o estupro, o assédio sexual, a violência pelo governo, incluindo tortura e abuso de mulheres prisioneiras. Este dia foi escolhido para lembrar o violento assassinato das irmãs Mirabal (Pátria, Minerva e Maria Teresa) no dia 25 de Novembro de 1960, pelo ditador Rafael Trujilo, na República Dominicana. Em 1999, as Nações Unidas reconheceram oficialmente o dia 25 de Novembro como o Dia Internacional da Não-Violência contra as Mulheres.
A Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres surgiu como uma mobilização educativa e de massa, que luta pela erradicação da violência e pela garantia dos direitos humanos. Em todo o mundo, quatro datas-marco representam essa luta no período de realização da Campanha: 25 de novembro a 10 de dezembro, por isto chamamos de 16 Dias de Ativismo. No Brasil, mais uma data é destacada pela dupla discriminação sofrida pelas mulheres negras: 20 de novembro - Dia Nacional da Consciência Negra. Tudo isso para que a sociedade repudie atos de violências praticados contra as mulheres; eles representam violação dos Direitos Humanos.

Violência contra a Mulher e Prostituição Feminina: Uma relação de poder

A violência na prostituição é uma constante que vai além da violência que a prostituição em si provoca. Apresenta-se impingido o tabu da sexualidade, a predominância da moral, do preconceito da sexualidade exposta ao poder patriarcal que determina o lugar da mulher. A mulher em situação de prostituição é denominada de maneira violenta, isto é percebido pelo uso dos nomes pejorativos a ela aferido e naturalmente aceito pela sociedade. As expressões “puta”, “mulher de vida fácil”, “meretriz”, “quenga”, “destruidoras de lares”, “prostituta”, “sem vergonha” e outros e tal designação cabe somente a mulher que prostituem.
A sociedade atual, embora tenha se caminhado bastante para uma eqüidade entre os gêneros, permanece ainda a predominância do poder do macho , ser “filho da puta” ainda é um grande ou maior insulto a um homem. Muito embora, dizer às mulheres que estão no exercício da prostituição os mesmos nomes é um comportamento natural e sem agressividade. Esta forma de designar as prostitutas é usada apenas para distinguir uma “categoria” de mulher que não é aceita socialmente, que pelo poder comercial do corpo feminino, cria um comércio incomum: oferta (venda de sexo) procura (compra de serviços sexuais). Neste sentido a prostituição vive sobre dois paradoxos distantes entre em si e ao mesmo tempo separado por uma linha muito tênue. A mesma sociedade que a cria a repudia. A moral, ao longo da história, distinguiu a mulher prostituta das outras (mulher direita) e deferiu que no exercício da prostituição o respeito e o direito da pessoa tornam-se prosaico e a liberdade passa da dignidade à marginalidade.
Uma ideologia machista e patriarcal põe sempre a mulher sob o julgo de um comportamento também machista, seja por parte de homens ou por parte de mulheres, pois é comum encontrar mulheres que com o uso da violência moral ou psicológica, pormenorizam as outras, sobretudo no exercício da prostituição. Esta atitude comportamental de poder é atribuída ao sistema educacional machista e patriarcal em que fomos educados na família, na escola, na igreja, enfim, em todos os ambientes das relações sociais. Por isso, falar de violência na prostituição não pode restringir apenas a violência própria deste contexto é preciso entender as distintas formas de violência de gênero em que todas as mulheres estão expostas.
Sendo a violência de gênero vista como maus tratos que afetam milhões de mulheres em todo o mundo, compreende-se que a prostituição é também, uma forma violenta que afeta as mulheres e quase sempre é tratada como causa e efeito.
A prostituição é sempre apresentada historicamente como algo existente nos primórdios de nossa história e da organização humana, de fato esta afirmação é uma apologia para perpetuar o sistema de dominação das mulheres, e esta conotação ganha espaço com a naturalização e banalização da prostituição. Swain Navarro (2004) salienta ao classificar a violência especifica para as mulheres no exercício da prostituição, que o discurso social da profissão mais antiga do mundo “justifica a prostituição, esvaziando-se de sua violência constitutiva. A prostituição transformada em profissão de fato legaliza a violência da apropriação material e simbólica dos corpos das mulheres”, com esta afirmativa é claramente notável que a relação de poder evidencia a violência sobre os corpos femininos.
A violência na prostituição não é meramente um discurso social, ela é parte de uma trajetória feminina de exposição ao poder masculino que cria uma relação mediada pelo desejo ao corpo da mulher, pela satisfação dos prazeres sexuais e relação de poder pelo dinheiro. Margareth Rago (1991) refere que o lugar da prostituição é também o lugar da exposição do poder masculino e da desigualdade feminina que se relacionam na “sociabilidade”, “na prostituição os códigos enredam em uma teia social fina ‘homem de bem’ e ‘mulher pública’ * (...) que concorrem para por em funcionamento forma de sociabilidade, fundadas na mercantilização da libido, do desejo e do prazer, nas quais se evidenciam a desigualdade entres os gêneros, a opressão feminina e a violência são intrínsecas e subjacentes”. Esta relação destitui a mulher do espaço e acrescenta a prostituta. Perpetuando a concepção do papel e lugar social da mulher, a “Santa” e a “Puta” uma é para casar e outra é para prazer. A puta não serve para casar somente para satisfazer os desejos insanos e o prazer é do homem. Para Simone de Beauvoir (1949 p 347) “a prostituta não tem direitos de uma pessoa, nela se resumem, ao mesmo tempo, todas as figuras da escravidão feminina”.
A visão marcada da “venda do corpo” coisifica a mulher e implica numa ausência de autonomia sobre si mesma. Enquanto a noção articula a idéia da hierarquização dos sexos. A mulher em situação de prostituição é posta numa escala abaixo e a violência escancara o poder patriarcal. Para Navarro Swain (2004) a “prostituição é talvez a maior violência social cometida contra as mulheres. E esta violência é agudizada por sua total banalização” a prostituição é uma solicitação social, parece importuno, mas a classe dos homens beneficia se apropriando da classe das mulheres e nela conferindo os mais algozes poderes de relação.
Diante de uma história cambiante, alguns fatores se “eternizam” no tempo e no espaço, sem ter alcançado a sua auto-afirmação, assim é a prostituição, a história não deu conta de atualizar ou extinguir, por isso a permanência de uma visão arcaica e ultrapassada da prostituição também se perpetua. O mesmo discurso preconizado da “profissão mais antiga do mundo” se mantém nos séculos. A prostituição e a violência de gênero, de modo geral, são questões que perpassam os tempos se estabilizando nas distintas e novas formas de se apresentarem, sem atingir um limítrofe.
A psicóloga Sandra V. da Silva (2005) discorre em sua tese que a entrada na prostituição representa uma violação contra os direitos da pessoa. Em muitos casos as mulheres são forçadas a exercer a prostituição pelos pais, maridos, namorados, como resultados das más condições econômicas e sociais, pelo abandono dos maridos que deixam mulher com os filhos sem condições de cuidá-los, enfim, por muitos motivos. Esta caracterização da entrada para o exercício da prostituição constitui forma violenta de perda dos direitos e autonomia do corpo e da agregada relação de poder do homem para a mulher.
Para concluir esta discussão recorro a Simone de Beauvoir que em suas considerações apresenta que na “prostituição a mulher oprimida sexualmente e economicamente, submetida ao arbítrio da polícia, a uma humilhante vigilância médica, aos caprichos dos clientes, destinada aos micróbios e a doença, é realmente submetida ao nível de coisa”, esta afirmação afere que a violência e o poder destitui a mulher de si mesma à condição inferiorizada não de pessoa, mas de objeto.
A naturalização da prostituição e, conseqüentemente da violência, acometida é fruto de uma sociedade doentia que enfrenta os problemas sociais com pontos de vistas diferenciados para homens e para mulheres.
Muito embora, a prostituição se apresenta ainda para a sociedade como algo fora dos padrões de normalidade da conduta social, ela é um fato a ser encarado pela sociedade, fugindo dos preconceitos e da moralidade. É necessário perceber que a prostituição é um agravante da violência e que põem muitas mulheres, todos os dias, em situação de risco, configurando, assim, numa permanente violência dos corpos femininos expostos a atos constantes de violência.

A Pastoral da Mulher Marginalizada se une na luta de todas as mulheres que querem um mundo sem violência, sem discriminação de gênero e com igualdade entre homens e mulheres. Por isso, estamos buscando aprofundar no estudo da relação de gênero e prostituição que se destaca nas atividades reflexivas da PMM. Assim sendo, lhes convidamos para juntar-se ao nosso grupo, por meio da sua analise reflexiva para aprofundarmos, cada vez, nessas questões e assim podermos, de fato, construir uma igualdade de gênero. Ademais, afirmamos categoricamente, assim como acreditamos, que a prostituição é um estado constante de violência para as mulheres e precisamos incidir nesta causa maléfica para a construção de uma cultura de paz.
Contamos com sua contribuição, ela será muito bem vinda

Sueli Aparecida da Silva
Graduada em Sociologia pela FESPSP
Secretaria da PMM Nacional

Resposta ao debate: 
Resumo: 

A Pastoral da Mulher Marginali

Comentários

Valores

O ser humano que se vende se chama prostituto.
O ser humano que se permite corromper é chamado de corrupto.
Ambos são um só. O que os separa é o produto que oferecem.
No caso do prostituto sexual, esse explora seu próprio corpo, e no caso do prostituto oficial, o corpo e a vida, além da educação, da saúde, da segurança pública e do cuidado ao meio ambiente que o dinheiro desviado deveria promover.
Acredito que a solução para o problema da prostituição feminina passa pela compreensão de que a prostituição masculina também existe e que a corrupção do poder é muito pior que julgarmos, coletivamente, e condenando, aos valores individuais que cada um possa carregar.
Se eu decido, para viver, vender prazer, é de minha conta, e de mais ninguém, o que faço ou sinto.
Se eu decido, para que meu bisneto viva num mundo saudável, denunciar um corrupto, vou parar na cadeia.
Esses valores estão equivocados.