SERRA O YORIK DO PSDB PAULISTA
Após o anuncio da candidatura de Alckmin a prefeitura de São Paulo os jornalões e revistinhas se perguntam se o rompimento entre o DEM e o PSDB fará bem para o último. Uma vez mais penso que a questão tem sido mal formulada. As alianças e rompimentos partidários fazem parte do cotidiano da democracia. Sendo assim, devemos encarar o rompimento entre os dois partidos como sendo absolutamente natural. O que ocorrerá com ambos depende menos desta decisão do que da maneira como os eleitores encaram seus lideres. Nesse sentido, vale a pena perguntar se faz bem para o PSDB depender tanto das ilusões presidenciais do Sr. José Serra.<?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />
Há quase uma década o PSDB paulista existe para satisfazer o ego do atual governador. Por imposição do ramo paulista Serra foi candidato a presidente e acabou derrotado. Perdeu feio porque não tinha nem estatura para ser Presidente nem carisma para concorrer com Lula.
Os eleitores paulistanos deram ao deprimido Serra a oportunidade de ser Prefeito da capital. Ao invés de acomodar-se no cargo, cumprir seu mandato e aposentar-se ele largou vergonhosamente a Prefeitura na mão de um vice tão impopular quanto truculento. José Serra teimou em disputar o governo do Estado e ganhou mais por incompetência da oposição do que por seu mérito pessoal. Mas o eterno candidato não está satisfeito com seu cargo. Usa a proeminência de seu mandato para garrotear o PSDB de maneira a se impor como candidato presidencial em 2010.
Se não fosse prisioneiro de sua desmedida ambição presidencial, o Serra poderia vir a ser um estadista. Não é e me parece que nunca será. O governador de São Paulo está enterrando o PSDB paulista. Um partido político que não é capaz de distinguir-se de seu principal líder está destinado à lata do lixo da história. Gostemos ou não a verdade é evidente: o senhor José Serra já está velho e mais perto da cova que da glória. Se continuar a garrotear seu partido o mesmo irá para a cova com ele. Por mais defeitos que <?xml:namespace prefix = st1 ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" />Getulio Vargas tenha tido ele não tentou ficar à força no cargo de Presidente quando as condições histórias que o levaram ao mesmo se desmancharam. Como estadista e bom gaúcho, Vargas retirou-se para os pampas e lá amargou silenciosamente seu exílio. Quando retornou ao poder pelo voto já não tinha o mesmo vigor e juventude. Mesmo assim, após o atentado da Rua Tonelero, num ato de absoluto domínio de si e de suas contingências Getulio saiu da vida para entrar na história. Seu suicídio decretou o enterro político de Carlos Lacerda. O rival sobreviveu a Vargas, mas não chegou à presidência.
Apesar de toda pose, publicidade e propaganda Serra não tem a estatura do Getúlio Vargas. Nem mesmo consegue desempenhar bem o papel de Carlos Lacerda. Em razão da idade avançada e a insistência em submeter a realidade ao seu desejo de ser Presidente Serra está ficando cada vez mais parecido ao Brizola. O Brizola foi grande e poderia ter sido maior. Mas como não se retirou da cena pública a tempo, amargou um longo esvaziamento de sua liderança. Quando muito hoje é lembrado por causa das "perdas internacionais" (um conceito vago que se tornou seu mantra enquanto tentava inutilmente chegar à presidência) ou das peripécias de sua filha. Quem achar que a comparação entre o Serra e o Brizola é bizarra pode comparar o governador ao velho Ulisses Guimarães. Mas ao contrário de Serra o velho Ulisses foi um colosso. Líder indiscutível da oposição às brutalidades, banalidades e imbecilidades dos militares Ulisses construiu o maior partido de oposição da América Latina. Chutou o saco dos militares usando as regras que eles mesmos haviam aprovado forçando-os a criar uma maioria artificial e "biônica" no Congresso. Mas nem assim os militares conseguiram reduzir a importância do incansável oposicionista. Ulisses Guimarães comandou a Constituinte, foi Presidente da Câmara, Presidente do PMDB e, nas ausências de Sarney, Presidente da República.
Mas nem sendo um colosso o Ulisses Guimarães conseguiu domesticar a realidade. Quando pensou que podia submeter todos ao seu sonho presidencial o velho guerreiro acabou abandonado pelos aliados e amargou um pesadelo. Não foi derrotado, foi humilhado. Apesar de comandar o maior partido político na disputa teve quase tantos votos que um desconhecido que usava alguns segundos de propaganda eleitoral gratuita na TV para dizer estridentemente MEU NOME É ENEAS! A natureza se encarregou de abreviar a vida de Ulisses Guimarães reabilitando-o para a história. O acidente de helicóptero deu ao velho líder a oportunidade de encerrar sua carreira de maneira mais digna que o alquebrado Brizola. Morto no mar sem que seu corpo fosse encontrado o Ulisses se tornou nosso Dom Sebastião. Quem sabe ele ainda volte para dar uns conselhos para o senhor José Serra. Sou até capaz de imaginar a cena com um colorido shakespereano: Nos corredores do palácio do governo paulista uma sombra atemoriza os guardas após a meia-noite. Nosso Dom Sebastião de botinas amarelas lamenta seu destino e clama pela presença do afilhado político. Avisado, Serra resolve encontrar-se com o fantasma na noite seguinte. Mas ao ficar frente a frente com o destino sua coragem o abandona. Como se fosse Hamlet o governador paulista fica paralisado de terror diante de um Ulisses Guimarães transparente, cabisbaixo e macambúzio que lhe dá um melancólico aviso: "O meu tempo já passou. O seu já é quase passado. Sábia, a natureza da vida me privou.Mas não me retirou toda a razão.Abandona tu esta tua ilusão" (pausa, Serra ainda petrificado houve o silêncio) "Não sepultes o futuroPartindo ao meio teu partido.Podes ainda, sem ser Presidente,Continuar grande entre as gentesOu ser novamente derrotadoE fazer rir até teus parentes" A grandeza do tema é evidente. A baixa qualidade da minha poesia, também. Desculpem-me se não chego aos pés de Shakespeare. Todavia, o senhor José Serra também não tem a mesma intensidade humana e dramática que Hamlet. Afinal, o personagem de Shakespeare ambicionava mais se vingar do que ser rei e foi capaz de sacrificar sua imagem, amor e vida para atingir seu objetivo. Já o José Serra acredita sem razão que merece a presidência mais que o Lula e pretende sacrificar todos no altar de seu ego para ser novamente derrotado. Ao invés de ajudar a renovar seu partido e leva-lo ao poder Serra afoga-o no mar tempestuoso de suas ilusões.
Serra não é trágico, é cômico. Um verdadeiro Yorik do teatro psedebista paulistano.
Fábio de Oliveira Ribeiro
